Morreria tentando dizer isso, mas é algo que penso melhor nunca ser dito, porém, fantasiar que estou a dizê-lo, isso nem mesmo minha razão mais estreita e ajustada poderia impedir.
Então em meus momentos mais ausentes, sonho que o estou dizendo, com palavras leves, calmas que saem como pequenos fragmentos brilhantes, como purpurina furta-cor que sai de minha boca diretamente para os seus ouvidos.
Imagino que o momento perfeito seria um desses fins de tarde ensolarados e frios de inverno, quando o sol começa a baixar e a brisa fria invade o ambiente. Um fim de tarde onde veria os pelos de nossos braços arrepiando-se. Os seus por frio e os meus na ansiedade de precisar dizer algo. E sinto a boca seca, o coração a acelerar aos poucos enquanto o sol deixa seus últimos raios ao ir deitar-se dando espaço a um começo de noite. E as primeiras estrelas despontam junto ao frio que aumenta, assim como minha ansiedade e apreensão. Tão difícil precisar mais que a vida revelar o irrevelável. Tão simples se as palavras apenas me saíssem. Tão bom seria dizer se isso de fato não arruinasse tudo.
E com a noite chega a despedida, num fim de tarde desses perfeitos, desses de inverno onde revelaria tudo, onde as palavras sairiam belas, claras, brilhantes. Mas não hoje, não em algum lugar fora de minhas fantasias. Coisas para guardar para si, bem costuradas junto ao peito. E nada muda, nem as palavras saem. As tardes vem e vão solitárias. E permaneço em meio a multidão, a sonhar com o dia onde revelaria tudo. Nada muda, nem mudará. As palavras não sairão voando como purpurina para seus ouvidos. Nada além de pensamentos bobos, nada que realmente valha à pena ser dito. Nada que valha arriscar o tão pouco, pois antes esse tão pouco que nada. Apenas palavras que nem mesmo merecem ser ditas. Coisas para quem escolheu viver mais dentro de si, que dentro do mundo. Pelo menos por hoje.